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AO LUSCO-FUSCOAS TOUPEIRAS TÊM OLHOS |
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MARGARIDA PERFEITOwrote:
VENHO DE LONGE...TALVEZ REVER AMIGOS...
OBRIGADA PELA VISITA
Apr. 2
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"AS VERDADEIRAS CAIXINHAS DE SURPRESAS"![]() Um dos maiores quebra-cabeças na minha vida é a arrumação, ou o simples "passeio" por uma gaveta. Quer vá no intuito de procurar algo que o tempo já só me aponta como lógico estar naquela gaveta, quer deambule em "romagem" de alma e coração por aquele interior, onde sempre coube mais alguma coisa para mais tarde recordar, é uma real odisseia! Sim, porque acredito que cada pequena coisa que um dia ali foi parar, não é mais do que um pedaço de mim mesma, um pedaço da minha estória, bem ou mal contada, arquivada ou pendurada por resolver, com cheiro a alfazema dos campos ou cheiro fétido à podridão do não enterrado... Aconteceu isso hoje, e de entre tudo o que de lá "saltou", ainda que sem pedir licença, feita uma "caixinha de surpresas", houve uma pequena tira com não mais de doze por dois centímetros, recortada de um jornal, revista, sei lá...amarelecida do tempo, onde cabiam apenas cinco linhas escritas, quando, como e por quem, não sei...que transcrevo aqui, e me pararam longamente uma outra vez, me puseram a pensar e a achar que o que naquele papel tinha sido colocado, o tinha sido por alguém, com uma forma de sentir e se exprimir, coladinha à minha... "Nada sei sobre os mecanismos da memória. Não sei onde se registam os acontecimentos que nos impressionaram. Acho que o coração determina os arquivos onde se guardam as vivências. Algures, numa vasta zona nebulosa da galáxia dos afectos. Eventualmente para os trazer de volta vivos e obrigatórios ou os desfocar suavemente até se perderem em remotas imagens no correr do tempo. Uma questão de defesa e sobrevivência da alma afectiva ou um imperativo de consciência." Por isso é que, cheias as arcas e baús, cheias as gavetas e as malas, eu tenho que possuir de facto, um coração e uma memória, onde as "galáxias dos afectos", onde os ficheiros e os arquivos da vida, ganhem ninho de eternidade. Porque dia após dia, o tempo implacável e insensível, leva-nos por pirraça, a deixá-los entreabertos, para que tudo se esfume, e um dia, quando a nossa "caixinha de surpresas" for aberta, sentimos aquele soco no estômago, como quando constatamos que um ficheiro que amávamos e guardávamos religiosamente como um tesouro, está afinal vazio no nosso computador... "SÓ CONHECEMOS O QUE CATIVAMOS..." - Saint Exupéry![]() Hoje ofereci ao António "O principezinho"... O António tem só sete anos, mas é escorreito na leitura, no vocabulário, na interpretação. O António expressa-se com uma maturidade bem acima da sua idade cronológica, é rico nas palavras que utiliza, compreende sem dificuldade. É vulgar, sempre que sente falta, ouvi-lo inquirir os pais ou quem tem por perto, sobre o significado de um vocábulo, ou o sentido duma frase. Além disso, o António é puro de alma, como acredito, o serão todas as crianças. Há dias, li com atenção e surpresa, frases soltas por ele escritas, sobre os amigos e sobre o que para ele faz sentido numa amizade. Foram frases que me emocionaram, foram palavras soltas, que se percebia terem jorrado daquele coração e daquela cabecinha (agora já sem caracóis), do meu "cientista maluco"...como carinhosamente o chamava. O António ainda não "experienciou" à séria, esse milagre na vida. Talvez já saiba o que é trocar conversas, partilhar jogos e brinquedos, com o Diogo, que elegeu para o seu melhor amigo. Talvez até já tenha consolado e sido consolado, numa aflição, num desaire, num desgosto, pequenino como ele. Porque, felizmente, o António ainda não sabe o que são mágoas, desilusões, tristezas grandes...porque essas, estão justamente guardadas para gente grande... Chegará a altura em que vai perceber, como diz Saint Exupéry, que a linguagem da alma é a que vem do coração, que as coisas importantes da existência, os olhos não vêem, apenas o coração as sente...que para "conhecer" é preciso "saber cativar" e que essa verdade, passa despercebida a muitos e muitos... Chegará a altura em que vai perceber que um Homem nunca será pobre se tiver amigos... É uma frase feita, mas é uma verdade absoluta e magnânima. E vai perceber ainda, que "guardar" esses amigos para a vida, é um acto de inteligência, de sabedoria, de generosidade. Terá que saber perdoar para ser perdoado, entender sem julgar, dar, mesmo que não receba proporcionalmente, saber ouvir sem precisar de concordar, ser forte para poder levantar, mas também rir desbragadamente quando a alegria chega e não há barreiras para tamanha Felicidade!!!... Qualquer dia, daqui a algum tempo, hei-de conversar calmamente com o António. E ele há-de dizer-me se o "meu", agora também "dele", Principezinho, lhe tocou o coraçãozinho de criança, como me tocou o meu, há muitos e muitos anos atrás... e qualquer dia, daqui a algum tempo, quando eu já não conversar com ele, gostaria que o menino do asteróide, pudesse ser uma referência, uma lembrança doce, na sua estante de livros... "EL VINO PUEDE SACAR COSAS QUE EL HOMBRE SE CALLA"...![]() ![]() Isabella voava a muitos pés de altitude, algures sobre os Alpes... A viagem já decorria há algum tempo, mas ela, totalmente desligada do relógio, do local, das pessoas, continuava absorta, meio adormecida, meio entorpecida nos seus pensamentos. Revia a sua vida nos últimos anos, retroespectivava o que ela fora globalmente... Rumava à Itália, à Toscânia da sua juventude, ao verde dos campos, aos prados, às vinhas, à grandiosidade de Florença ou Siena, ao intimismo de Livorno. Precisava limpar o sangue e a alma, precisava limpar o coração, precisava renovar a mente, se fosse capaz. Precisava rever amigos, dividir com eles serões sem tempo, jogar "conversa fora" sem pressas, com a inconsequência de quem saboreia uma vida em que quer voltar a acreditar (como um doente milagrosamente saído de um período comatoso de doença quase incurável). Precisava voltar ao aconchego genuíno do "ninho"... Desejava ansiosamente mergulhar no calor dos corações, frente a calores de fogueiras acesas, saboreando sem culpas um cálice de Chianti pelas madrugadas... ![]() Saíra de Itália quatro anos antes, atrás de um grande amor. Um amor fulminante, que lhe merecera tudo, um amor com o romantismo de quem o vive adolescentemente pela primeira vez. Certo que a correspondência não era igual, certo que a partilha e a entrega eram mais unilaterais, certo até que o afecto não era totalmente gratificante... Mas ela amava por dois, dava por dois, via por dois pares de olhos, acreditava no que precisava, para viver. Um amor no fio da navalha, uma relação ciclópica, fatal, louca, de abismo... Mas para Isabella, mulher adulta em coração de criança, mulher de um tudo ou nada, não valia a pena questionar-se, não valia a pena confrontar-se, porque uma coisa afinal ela nunca perdera: a lucidez, a objectividade, a análise correcta de tudo... Apenas negava esse "tudo". Experienciava algo duma intensidade que a assustava mas necessitava para viver, sem muito sentido, quase doentio talvez...raiando o grotesco de uma anulação crescente. E foi vivendo como pôde, num país estranho, uma relação que aos poucos e poucos se tornava ainda mais hermética, ilógica para a sua compreensão, uma relação de parâmetros duvidosos e injustos. Calou dores, aquietou penas, sufocou dúvidas e desconfianças, esmagou sofreres, engoliu lágrimas e lágrimas... Quando as forças lhe faltavam, não era Chianti da sua Itália que a mitigava, que a adormecia, que a anestesiava, que a "travestia" de outra pessoa, em que esquecendo toda a angústia, se transformava... ![]() Não era Chianti, mas era qualquer outra doce "morfina", que de novo a tornava aparentemente alegre, exuberante, feliz, solta, louca (como quando se conheceram), capaz de tudo para não perder o tão pouco que possuía. Quando os pés de novo assentavam na terra real, quando a cabeça saía do doce torpor da inconsciência do "milagre" operado, o mundo desabava-lhe então em cima... Aí a dor era mais dor, o confronto com a pessoa em que se tornara e com a vida que detinha, era devastador; o julgamento sobre si própria, absolutamente destruidor! Mas ainda assim, "karmicamente", como num hipnotismo que lhe retirava as forças, a decisão e o querer (qual libélula rodopiante entontecida e cega em torno de uma luz na noite escura), procurava que as horas felizes apagassem as outras, deixando-se mergulhar até ao inaceitável, quase indiferente, incapaz, como quem não encara o sofrimento e masoquistamente se precipita para o abismo... Aquela paixão arrebatadora e destrutiva ao mesmo tempo, era o que a fazia viver... Até àquele dia... Nesse dia fatídico (ou libertador?), à frente dos seus olhos tudo ficou final e inapelavelmente claro. Isabella afinal só recebera pedaços de amor, dividido que sempre o havia sido por outros "alguéns", por outras vidas, por outras camas, por outros corpos... Um "raio" atravessou-a, fulminou-a, toldou-lhe a vista...matou-a subitamente... A paixão, o amor, toda a nobreza dos sentimentos acalentados ludibriadamente...lhe caíram aos pés... O mundo rodopiou num vórtice, que lhe parou o cérebro e lhe trouxe vómitos de fel à garganta... Naquele momento, aquela mulher sucumbiu para a vida. O sentido de injustiça, ódio, manipulação... a dor do punhal de uma traição ignóbil (como o são todas as traições), o sentir-se cruel e ingenuamente usada, o buraco imenso que se lhe abriu aos pés e a fez vacilar...tomaram-na e aterrorizaram-na, face a um futuro que não acreditava mais poder já existir. O seu Chianti, nesse dia teria de ser a misericórdia que a "salvasse"... E o seu Chianti, não degustado, saboreado, usufruído...mas engolido de um trago, sorvido, despejado para dentro de si num desespero louco e incontrolável, num sofrimento sem medida, foi de facto a "tábua" a que deitou mão, na eminência do naufrágio que já sentia na pele... A madrugada encontrou-a gelada, inerte no chão de mármore, donde já não conseguira erguer-se. Junto de si, apenas estilhaços do último copo e a garrafa totalmente vazia... Isabella voava a muitos pés de altitude algures sobre os Alpes... Isabella era uma mulher destruída.. "THE STORY" Brandi Carlile... Até a ouvir e sentir este inexplicável arrepio, esta melancolia que o seu olhar traduz e este "mistério" que sempre são as histórias de cada um...uma desconhecida para mim. Agora "grudou-me" na pele, a dela, a minha, as histórias que todos teríamos p'ra contar, que ninguém sabe, ninguém conhece, ninguém desconfia... Simplesmente histórias...as nossas... Era madrugada, um calor que não abatera, um céu talvez estrelado, uma lua quase cheia ainda, como um fogaréu lá no alto. Ana ainda estava impregnada do cheiro, da pele, do misto de veludo e áspero daquelas mãos sábias que sempre a percorriam. Naquela cama desfeita permanecia o desenho dos corpos que nela se haviam perdido, estava a marca dos sonhos que ela por ali espalhara a esmo, acreditando que o não eram, que eram antes verdades que a madrugada e o sol da manhã não se atreveriam a desmantelar. Ana era uma utópica sonhadora... Sempre criava sonhos, sempre idealizava histórias... e sabendo que o eram... que apenas o eram, neles acreditava, deles vivia, com eles se alimentava. "Criara-o" também..."talhara-o" como precisava que ele fosse..."pintara-o" a cores pastel de aguarelas indecifráveis, que só ela via, que só ela sabia, em que só ela teimava em perder-se. Ana amava a sua própria "criação", apaixonara-se pela sua própria "obra", idealizava o que concebera. E como uma adolescente desafiadora, como quem quer obrigar a vida a desviar o seu rumo (como se o rio invertesse a marcha apenas pela vontade de alguém)...sentada semi-nua na beira da cama sorriu quando a porta bateu e os passos se afastaram p'la calçada, perdendo-se no silêncio da noite... Ele não partira...Aquele beijo de despedida fora apenas um "até amanhã" tinha a certeza; a mala que levara consigo voltaria no dia seguinte, ou numa nova madrugada de calor e suor, em que se amariam outra vez perdidamente, feito loucos numa alucinação de entrega, dor e prazer... até caírem exaustos naquela cama; as palavras definitivas não o podiam ser; a dureza que se lhe estampara no rosto ao partir, o frio gélido que descera daqueles olhos de menino-homem, que a trespassou qual corrente de ar traiçoeira, açoitando-lhe o corpo como canavial em dia de tempestade, fora mais um pesadelo da madrugada... Porque "esse", simplesmente, não fora o final da história que Ana escrevera... "Afinal...era só um pombo..."![]() Não gosto particularmente de pombos... Desde que vi então "Os pássaros" de Hitchcock, ainda menos. Eu bem sei que aquilo lá não são pombos, creio (estão mais p'ra gaivotas). Mas aquela nuvem compacta sempre por cima das nossas cabeças é um pouco ameaçadora. A minha praceta, como aliás muitas zonas da cidade, está infestada dos ditos e para lá de todos os "estragos" a vários níveis que nos causam, eu sei que são facilmente transmissores de doenças. Não é gratuitamente que são chamados os "ratos do céu". Empestam o espaço com aquele cheiro peculiar a "capoeira", sujam insolentemente os vidros das janelas, na maior "lata", quando resolvem postar-se nos telhados "de costas" para a rua...E depois, acho-os estúpidos...estúpidos ou crédulos...Acreditam que o ser humano partilha com eles de tal forma os espaços e os lugares, que mesmo que sapateiem com ar desafiador, à frente dos nossos carros, jamais serão atropelados. Ora, é deprimente o espectáculo na calçada, das "tostas mistas" de pombo, feitas pelos carros, autocarros e por pouco, também pelos sapatos dos transeuntes que com eles dividem o empedrado! Eu tenho essa fantasia horrorosa...a de poder atropelar um pombo, e dou por mim a buzinar-lhes insistentemente, a travar até ter a certeza que não estão mais no trilho dos rodados do meu carro, a sentir aquele arrepio na espinha, só de imaginar o "crocante" que seria, enquanto vou dizendo em desespero : "Ai pombo! Sai daí!..." (como quem diz : "Que sufoco!"...) Lá se desviam então, incomodados, regressando estupidamente segundos depois. Isto, quando não nos fazem, em bando, aqueles voos rasantes!... Receando que o "radar" não funcione na perfeição, sempre imaginamos quando é que um deles calcula mal o "raid aéreo" e esbarra connosco... Cruzes, credo!!...Isso é coisa de poder dar-nos pesadelos nocturnos!... Bom, mas hoje a história foi outra...e foi tão só a imagem real e viva da solidão da Morte, retratada na morte de um pombo... Numa janela de cave, rés-vés às pedras da calçada, num pedacinho de sombra ainda não inundada pelo que prometia ser o calor de uma tarde tórrida de Verão, estava só, ainda sobre as patas suportando o peso do corpo, com a cabeça no parapeito... Aninhado, os olhos cerrados, o corpo exangue, numa imobilidade petrificada...sem uma queixa, sem um frémito ou estremecimento, sem uma súplica... Eram... "aquele pombo" e a solidão, a desistência, o cansaço, o torpor, a capitulação...a Morte a rondar por perto, implacável nos minutos que corriam, com o sol a crescer, a crescer, prometendo sufocá-lo ainda mais! Para mim, deixara de ser "aquele pombo"...Era tão só o retrato fiel da morte... A morte indistinta, a morte anónima, a morte sem revolta, quieta, a morte com todos os seus "condimentos" de sofrimento, de ausência, de abandono, de indiferença... Era já só a "espera"...a espera que se cumprisse o "ciclo"; a espera que o ponteiro rodasse até onde o destino determinara que rodasse...a espera que o sol, caridoso e complacente, acabasse depressa com aquela tortura!... E as gentes passavam... Era só um pombo...um, entre muitos, que, como disse, nos perturbam... |
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